
Só porque a crise económica e financeira anda nas bocas do mundo não significa que todos sejam atingidos da mesma maneira. A casa editora Karl Dietz em Berlim, por exemplo, está a ver crescer as suas receitas com o aumento inesperado e inusitado das vendas das obras de Karl Marx. E muito especial com uma, O Capital, onde Marx descreveu de forma exaustiva e sistemática o funcionamento do sistema capitalista.
Ora precisamente
O Capital, a obra fundamental de Marx,
foi passada ao cinema. Assim dito soa fácil, mas os que já tiveram nas mãos os volumes d’
O Capital tem de fazer algum esforço de imaginação para entender. A verdade é que Alexander Kluge, realizador de cinema e homem de cultura alemão, levou a cabo o empreendimento.
A ideia de filmar O Capital não é nova. Já há 80 anos o realizador soviético Sergei Eisenstein, autor do clássico do cinema O Couraçado Potemkine, precisamente no ano em que deflagrou a Grande Depressão Económica, tinha pensado e desenvolvido um projecto nesse sentido. Oskar Negt, um sociólogo alemão, está convencido que a preocupação de Eisenstein era achar imagens que ilustrassem o processo económico do capitalismo. Eisenstein nunca chegou a realizar o projecto.
O filme de Alexander Kluge, com uma duração de 9 horas e gravado em 3 DVD’s, chama-se Nachrichten aus der ideologischen Antike: Marx – Eisenstein – Das Kapital (Notícias da Antiguidade Ideológica: Marx – Eisenstein – O Capital) e tem a chancela da prestigiada editora alemã Suhrkamp. No primeiro DVD, Kluge debruça-se sobre a ideia de Eisenstein de fazer um filme tomando O Capital como guião cinematográfico, o segundo mostra a relação dos homens com as coisas e o terceiro tem como ponto fulcral a sociedade de troca. Kluge recorre a poderosas colagens de palestras com Hans Magnus Enzensberger, Oskar Negt, Peter Sloterdijk, Dietmar Dath e Sophie Rois, apresenta cenas soltas filmadas no quotidiano e ainda alguns sketches com o humorista alemão Helge Schneider. Nos colóquios participam ainda Joseph Vogl, Durs Grünbein, Rainer Stollmann e muito especialmente Galina Antochevskaia, uma sobrinha em segundo grau da intérprete de Lenine para alemão, hoje ela própria tradutora.O lançamento dos DVD’s no mercado está previsto para o dia 19 deste mês.
Karl Marx teria chamado a esta crise um figo. Não só teria soltado, satisfeito, uma gargalhada olímpica, orgulhoso da correcção da sua análise do capitalismo, como insistiria mais uma vez na necessidade de o ultrapassar. Este sistema económico com uma capacidade fantástica de produzir imensas riquezas, é, no mesmo fôlego e com a mesma sofreguidão, capaz de as destruir, arrastando na voragem da sua força auto-destrutiva franjas cada vez maiores da humanidade para as bordas do abismo.
Alexander Kluge “interessa-se fundamentalmente pelo estilo de linguagem da obra e pela sua história. Ambos os aspectos abordam níveis de pensamento que não podem ser definidos recorrendo a critérios exclusivamente intelectuais. Deste modo O Capital passa a ser também um fenómeno estético.”
Alexander Kluge nasceu em 1932 em Halberstadt, doutorou-se em 1956 em Ciências do Direito, trabalhou como consultor jurídico no Instituto para Pesquisa Social de Francoforte, onde ganhou a confiança de Teodoro W. Adorno. No início dos anos 60 tornou-se conhecido simultâneamente como escritor e realizador de cinema. Colaborou nos trabalhos do Grupo 47, publicou em conjunto com 25 outros jovens realizadores o Manifesto de Oberhausen.É em 1966 o primeiro alemão, depois da Segunda Guerra Mundial, a receber o Leão de Prata no Festival Internacional de Cinema de Veneza, pelo filme
Abschied von Gestern com Alexandra Kluge no papel principal. Este prémio abriu as portas da Europa para o
Neuen Deutschen Film (Novo Filme Alemão) para o qual Alexander Kluge deu um impulso decisivo.