O que Euclides, matemático que viveu 300 anos antes de Cristo, afirmou, serve para os crentes e para os ateus:
- “O que é afirmado sem provas pode ser refutado sem provas.”
A questão da existência ou não-existência de Deus é, pois, uma bizantinice; uma nuvem de fumo que desaparece quando se apagar a fogueira crepitante alimentada pelos conflitos das relações sociais.
Hoje de manhã, ao dar um passeio pela blogaria nacional, deparei mais uma vez com esta expressão: “eu... blá, blá, blá...ateu convicto...”. Ateu convicto? O que é um ateu convicto? Meti a expressão no Google para saber mais sobre ela e deparei com enxurradas de declarações de ateus convictos.
Se já tinha as minhas dificuldades com o ateísmo alardeado aos quatro ventos, com a carga do “convicto” a reforçá-lo a coisa complica-se. Do crente convicto sabemos que cumpre com as suas prácticas religiosas, vai à missa regularmente, ora e adora, vê o dedinho do Transcendente nos acontecimentos do mundo. Mais: Vê a Entidade Transcendente na origem de tudo o que é decisivo no Universo. Uma crença absolutamente legitimada pelo estado em que está o mundo e a sociedade. Uma crença alimenta-se do que (ainda) se não sabe da vida - e dele se recusa a saber - e nesse desconhecimento encontra a sua justificação: Mistérios, milagres e outras fantasias feitas de fumo espiritual.
O ateísmo convicto surge-me como seu rival ou adversário, num combate activo e sem tréguas, usando os mesmos métodos e as mesmas técnicas na afirmação de um não-Deus. Um não-Deus que precisa do Deus dos crentes para se alimentar e justificar. Os argumentos a que recorrem para contestar o Deus provêm do fundo religioso, em que todos fomos educados, só que virado do avesso, de sinal inverso.
A Entidade divina é uma amálgama fantástica de fumos e odores espirituais que na consciência dos crentes se tornaram autónomos e que acabaram por se virar contra eles, submetendo-os ao seu elixir. Os ateus convictos, equipados do não-Deus, desenvolvem uma luta palavrosa e quixotesca contra esses fumos e aromas. É uma fumarada medonha.
A questão está em procurar, identificar, desmascarar e inutilizar os produtos, os meios e as prácticas que produzem esses fumos e essas fragâncias espirituais. É uma actividade que requere outros métodos, outras técnicas e outras vontades e que bem dispensa o permanente bater no peito a confessar que somos ateus convictos.