Quinta-feira, 8 de Outubro de 2009
Herta Müller: Nobel da Literatura 2009

 

Sobre a linguagem de Herta Müller: dura, clara, muitas vezes brutal, por vezes directamente metafórica, a cair no surreal. “Eu queria comer devagar”, está escrito no início de “Atemschaukel”, o mais recente romance de Herta Müller, sobre o “Anjo da Fome”, o omnipresente companheiro da contadora na primeira pessoa, “porque eu queria ter mais da sopa mais tempo. Mas a minha fome estava sentada como um cão na frente do prato e comia.”©


mart às 20:29
link do post | comentar |
partilhar

Sábado, 31 de Janeiro de 2009
Philip Roth, os hábitos e o novo romance

Philip Roth é o mais importante escritor norte-americano da actualidade e apontado como um sério candidato ao Prémio Nobel da Literatura. Numa entrevista dada à Süddeutsche Zeitung Magazin, aqui,fala dos seus hábitos de escrita e do seu último romance “Indignation”/Indignação.
 
Philip Roth escreve um livro por ano. “Uma página por dia, esse é o meu objectivo e por vezes alcanço-o, mas em dias bons também consigo dez. Obviamente que é só um rascunho que no fim volto a elaborar, até quatro, cinco vezes. No momento estou ocupado com a quarta revisão e já sei que vai ser preciso mais uma. A partir da terceira revisão o trabalho começa a dar prazer.”
 
Mas antes “é trabalho duro. No fim de cada revisão as coisas vão-se tornando mais claras, a intensidade aumenta, as páginas tornam-se mais vivas.”
 
Não é estabelecida uma concepção prévia da estrutura do enredo nem das figuras. Tolstoi escreveu cada linha de acção do seu “Guerra e Paz” numa folha de rascunho, mas Roth dispensa esquemas, diagramas, apontamentos. “Quando comecei a escrever ainda fiz apontamentos, delineei uma acção. Ainda não tinha aprendido a confiar na minha intuição e nas ideias que me ocorriam durante o trabalho. Hoje confio nas minhas ideias repentinas e avanço palavra a palavra. Às vezes faço apontamentos de um ou outro detalhe para mais tarde não o esquecer.”
 
De Philip Roth o mais recente romance é Indignação. “Quando arranco com um novo romance nunca sei o seu fim – isto preocupa-me sempre que começo. No caso de Indignação comecei com a descrição da relação de Marco para com o seu pai, depois a sua situação no colégio, os seus colegas de quarto, a sua relação com a namorada. A determinada altura, durante a escrita, fica para mim claro que tudo se desenvolve contra Marco e que ele vai ter de morrer na Coreia. Na altura ouvia sempre um programa na rádio em que eram lidos os nomes e as idades de soldados com 19 e 20 anos caídos na guerra do Iraque. O programa pôs-me doente. Se calhar foi este programa que me levou a deixar morrer Marco.”
 
Em Indignação trata-se de um jovem inexperiente em conflito com o pai, com os professores no colégio, com os seus colegas. Ele não se revolta, ele apenas vomita no tapete do director do colégio, cometendo no fim um erro estúpido, acabando por ser expulso da escola e mandado para a tropa. É um livro sobre o grande azar de um jovem ingénuo.”


mart às 21:28
link do post | comentar |
partilhar

Quarta-feira, 17 de Dezembro de 2008
Caro manuscrito

Foto: Sotheby's

O „Courtenay Compendium“ é uma colecção de textos dos fins do séc. XIV, contendo uma série de tratados de história e profecias escritas em latim. Nele estão também incluidos três livros, até agora desconhecidos, descrevendo a viagem de Marco Polo à China. O manuscrito da viagem foi agora leiloado no Sotheby’s onde atingiu o preço de 800.000 libras. O nome da colecção de textos é proveniente do seu proprietário.
 
O desconhecido manuscrito, com mais de 600 anos, foi compilado pelo seu copista a partir dos materiais existentes no arquivo do mosteiro inglês de Glastonbury e nunca tinha estado anteriormente à venda.
 
A viagem de Marco Polo partindo de Itália, passando pelo Irão, Iraque e Afeganistão, e atravessando os grandes desertos até chegar à China, é dos relatos mais conhecidos e fascinantes da literatura de viagens.Muito cedo estes relatos foram traduzidos para diferentes línguas. No entanto, o relato que atingiu maior divulgação foi o apresentado em latim por Francesco Pipino em Itália, ainda durante a vida do autor.
 
Calcula-se que estão em circulação pelo mundo fora cerca de 150 manuscritos dos lendários contos. No século passado surgiram  à venda no mercado mais alguns manuscritos medievais dos textos de Marco Polo. O último foi leiloado em 1930 pelo Sotheby’s.


mart às 10:41
link do post | comentar |
partilhar

Terça-feira, 9 de Dezembro de 2008
Porque é que escreve?

„Quem escreve não age e tem dificuldades com a realidade“, (…) “Nós tínhamos fome, nós tínhamos medo, nós tínhamos frio.”

 
No passado domingo à noite, o prémio Nobel da Literatura 2008, Jean-Marie Gustave Le Clézio, fez em Estocolmo o seu discurso de agradecimento pelo prémio. O escritor tentou dar uma resposta a uma pergunta que já nenhum jornalista coloca: “Porque é que escreve?”
 
“No início foi a guerra, a guerra da população civil e muito especial das crianças mais pequenas.” Jean-Marie Le Clézio nasceu em Niza em 1940, viu o marechal Rommel  que “ procurava por baixo da sua janela uma saída de escape com as suas tropas através dos Alpes.” Na guerra as crianças não podem sair para a rua. Os jardins e os terrenos juntos da casa da sua avó, que o educou, estavam minados. Junto ao mar avisava uma caveira: “Proibida a entrada.”
 
A guerra é o tempo de fuga da realidade, o tempo de sonhar. A avó contava histórias. Mal a guerra tinha acabado, escreve o seu primeiro livro com seis ou sete anos. A infância de um Prémio Nobel é marcada pela falta de papel e tinta. Ele escreve com um lápis de carpinteiro em papel de embrulho.
 
Só mais tarde trava conhecimento com os livros. A seguir à escrita vem a leitura e descobre “que os livros são um tesouro muito mais valioso que bens imobiliários ou contas bancárias.”
 
Há meio século atrás Jean-Paul Sartre recusou o prémio Nobel: Porque nenhum romance deste mundo pode compensar a morte por fome de uma criança. Mas, com a recusa, nem por isso se modificou a sorte das crianças. Os escritores têm de admitir que não podem mudar o mundo. “Ainda não atingimos a época da realidade.” A luta contra o analfabetismo e a fome tem de ser conduzida em conjunto.” Na quarta-feira ser-lhe-á entregue o merecido prémio por um rei de carne e osso.


mart às 11:08
link do post | comentar |
partilhar

Terça-feira, 11 de Novembro de 2008
Prix Goncourt para Atiq Rahimi

Foto: SIPA

O valor do prémio é de 10 euros. Mas interessante é que quem escreve e gosta de escrever sente um grande orgulho por o receber. Coisas destas passam-se na França, o prémio chama-se Goncourt e acaba de ser atribuido ao escritor de origem afegã Atiq Rahimi.
 
Para Rahimi, 10 euros é uma quantia simbólica. O escritor vai ver as vendas dos seus livros crescer em progressão geométrica e o seu nome consagrado no Olimpo das letras francesas.
 
Goncourt é o mais importante prémio francês de Literatura e foi atribuido a Atiq Rahimi, pelo seu romance Syngué sabour, Pierre de patience. O romance conta a história de uma mulher afegã que se liberta das algemas da opressão social e religiosa. Trata-se da primeira obra de Rahimi em língua francesa. Quanto ao tema, como em trabalhos literários anteriores, o premiado mantém-se fiel ao seu país de origem, o Afeganistão.
 
Atiq Rahimi nasceu em 1962 em Kabul, frequentou o Liceu franco-afegão Estiqlal e estudou Literatura na Universidade da capital afegã, tendo ainda trabalhado como crítico de cinema. Fugiu para França em 1984 da guerra do Afeganistão contra a antiga União Soviética, entretanto já tem a cidadania francesa. Doutorou-se na Sorbonne parisiense em Comunicação Audio-Visual. Realizou vários documentários e em 2004 adaptou ao cinema o seu primeiro romance Terre et Cendres (Terra e Cinzas). Esta obra que fala dos traumatismos provocados pela guerra no Afeganistão, esteve na lista dos livros mais vendidos em França. O filme  baseado no romance, foi escolhido no mesmo ano para ser apresentado no Festival de Cannes onde ganhou o prémio Regard sur l’avenir (Olhar para o futuro).
 
Com a invasão americana em 2001 Atiq Rahimi passou a empenhar-se mais na vida cultural de Kabul, tendo fundado a Casa do Escritores na capital afegã.
 
O premiado do Prix Goncourt foi anunciado no restaurante Drouant em Paris por um juri de 10 membros em que Rahimi foi escolhido por 7 contra 3 votos.
 
Syngué Sabour, o título do romance premiado, é o nome de uma pedra mágica a quem o povo afegão confia o seu desespero. No livro de Rahimi uma mulher vigia o seu marido ferido na guerra e condenado a levar uma vida inútil. Enquanto fala, a mulher vai-se libertando da opressão conjugal e religiosa.
 
“Eu falo das mulheres afegãs, como de todas as mulheres do mundo. As mulheres afegãs como as mulheres de todo o mundo têm desejos, sonhos e esperanças, as suas forças e as suas fraquezas”, comentou Atiq Rahimi.


mart às 09:35
link do post | comentar |
partilhar

Sábado, 1 de Novembro de 2008
Tobias Wolff e as eleições americanas

Que vai fazer o escritor Tobias Wolff se McCain ganhar as eleições? Tobias Wolff promete não ligar a televisão durante os próximos quatro anos. Vai ler e reler as peças de teatro de Shakespeare, ler tudo de Dickens, Thackeray, Stendhal, Tolstoi, Dostoiévski, Tchékhov, Maupassant e evitar tudo que lhe recorde os séculos XX e XXI. Brincar com o seu cão. E em 2012 esquecer todas as promessas feitas de  retirada e preparar-se para um novo ataque de esperança e desespero. Aqui.

 
Tobias Wolff é um escritor norte-americano que ficou famoso devido às suas histórias e às suas memórias autobiográficas. Nasceu em Alabama a 19 de Junho de 1945. Desde 1997 ensina Literatura – Escrita Criativa - na Universidade de Stanford. Deste autor foi publicado em português “A vida deste rapaz” na Teorema.


mart às 19:40
link do post | comentar |
partilhar

Sábado, 25 de Outubro de 2008
Roberto Saviano e Gomorra

Roberto Saviano, Foto: Google

O escritor italiano Roberto Saviano é autor do romance-reportagem „Gomorra“, onde descreve as técnicas e estruturas criminosas da Camorra, a Mafia napolitana. O grande sucesso da obra no mercado levou esta organização sinistra a ameaçá-lo de morte. Desde então vive escondido e protegido pela polícia. Há uma semana manifestou a intenção de abandonar a Itália.

 
Há alguns dias o jornal italiano La Repubblica publicou um documento de apoio a Saviano, lançado por seis laureados com o Prémio Nobel, apelando à responsabilidade do Estado italiano no presente caso. Promoveram a iniciativa Orhan Pamuk (escritor turco), Mikhail Gorbachev, Desmond Tutu, Günter Grass (escritor alemão), Dario Fo (dramaturgo italiano) e Rita Levi Montalcini (Nobel da Medicina). A onda de solidariedade, expressa entretanto em mais de 100.000 assinaturas, entre as quais também já figuram intelectuais de relevo como José Saramago, Ian McEwan, Hans Magnus Enzensberger e Peter Schneider, não pára de crescer. Roberto Saviano tornou-se em Itália o símbolo da luta contra a criminalidade organizada.
 
Entretanto também o juri do Prémio Nobel declarou publicamente o seu apoio ao autor ameaçado pela Camorra e convidou-o para falar em Estocolmo sobre a liberdade de expressão e a violência à margem da lei. A questão da solidariedade activa para com Saviano foi levantada pela escritora Kerstin Ekman que integra o juri composto por 18 pessoas para a atribuição do Nobel. Normalmente o juri do Nobel toma uma atitude muito reservada em casos semelhantes. Basta recordar a polémica do passado em torno da fatwa lançada pelo então presidente iraniano Khomeini contra o escritor inglês de origem indiana, Salman Rushdie.
 
Nos seus trabalhos literários Saviano ocupa-se principalmente com o fenómeno da criminalidade organizada. As suas reportagens sobre o tema são publicadas em diversos periódicos do seu país como L’Espresso, Il Manifesto, Corriere del Mezzogiorno e La Repubblica. Escreve também para prestigiados jornais e revistas estrangeiras como a Time, El País, Die Zeit e Washington Post.
 
Roberto Saviano nasceu a 22 de Setembro de 1979 em Nápoles. Os pais, um médico e uma professora, vivem na pequena cidade Casal di Principe, a 50 quilómetros de Nápoles, uma praça-forte da Camorra, dirigida economicamente pelo clã dos Casalesi. Saviano estudou filosofia na Universidade dos Estudos de Nápoles Federico II.
 
Pelo trabalho literário Gomorra – viagem ao império económico e ao sonho de poder da Camorra - publicado em 2006, recebeu já vários prémios. Da obra, só em Itália, foram vendidos até ao momento mais de 1,8 milhões de exemplares, tendo sido traduzida em 43 países. Aparece nas listas dos livros mais vendidos na Alemanha, Holanda, Bélgica, Espanha,  França, Suécia, Finlândia e Lituânia.
 
Gomorra de Saviano foi também adaptado ao cinema, num filme do mesmo nome, com grande sucesso. Na Feira do Livro de Francoforte deste ano o autor recebeu o prémio pela melhor adaptação internacional de uma obra literária ao cinema. O prémio, no valor de 10.000 euros, foi partilhado com o realizador do filme Matteo Garrone. Depois de ter sido premiado em Cannes, a Sociedade de Cinema italiano  decidiu nomear o filme para o Óscar, na rubrica do melhor filme estrangeiro.
 
Durante este mês uma testemunha principal fez chegar à polícia italiana a informação de que o clã dos Casalesi tenciona assassinar Saviano até ao Natal de 2008, fazendo explodir o seu automóvel por um mecanismo de comando à distância, na autoestrada que liga Roma a Nápoles. Saviano é da opinião que a Camorra só está à espera que o caso caia no esquecimento para levar a cabo as suas intenções criminosas.


mart às 22:20
link do post | comentar |
partilhar

Domingo, 5 de Outubro de 2008
Escrever livros, uma indústria

Foto: AFPQuem escreve livros é por definição escritor. Mas     quem o faz para um mercado e a pensar em números é também um industrial. Cultura como indústria? Também. E cada vez mais.

 
J. K. Rowling, a autora de Harry Potter, facturou num ano 217 milhões de euros. Significa que fez num mês 18 milhões, num dia 605 mil e por cada minuto que passou 420 euros.
 
A lista dos escritores mais bem pagos do mundo, publicada pela Forbes, é uma lista onde quase só constam escritores norte-americanos e onde se escreve numa única língua, o inglês. Por outro lado nenhum autor da lista da Forbes aparece numa lista de candidatos ao prémio Nobel ou outro prémio de prestígio. De destacar é também o facto de muitas obras dos autores da Forbes já terem sido passadas para o cinema, vindo os direitos de autor ampliar significativamente os seus honorários.
 
No Reino Unido a Author’s Licensing and Collecting Society, organismo que defende os direitos de autor de 25 mil membros, revelou que só 10% dos autores recebem 50% das receitas de vendas e que 60% dos escritores precisa de outra profissão para viver. Aqui.

Etiquetas:

mart às 09:12
link do post | comentar |
partilhar

Sábado, 4 de Outubro de 2008
Os dez escritores mais bem pagos do mundo

Lista publicada pela revista “Forbes” para o ano de 2007:

 
  • J.K.Rowling [Harry Potter]: 216 milhões €
  • James Patterson: 36 milhões €
  • Stephen King: 32 milhões €
  • Tom Clancy: 25 milhões €
  • Danielle Steel: 21 milhões €
  • John Grisham: 18 milhões €
  • Dean Koontz: 18 milhões €
  • Ken Follet: 14 milhões €
  • Janet Evanovich: 12 milhões €
  • Nicholas Sparks: 11 milhões €
 J.K. Rowling publicou a sua primeira obra em 1997. Até ao momento já foram publicados 7 volumes seus, dos quais se venderam 400 milhões de cópias com traduções em 67 línguas. O seu último volume da série Harry Potter, publicado em 2007, já vendeu 44 milhões de exemplares. Os primeiros 15 milhões foram vendidos nas primeiras 24 horas. Os direitos de autor com a passagem ao cinema já renderam à escritora 3,2 milhões de €. Aqui.

Etiquetas:

mart às 11:49
link do post | comentar |
partilhar

Dinis Machado, 21.03.1930 – 03.10.2008

Dinis Machado, imortal: O que diz Molero (1977)

Pseudónimo, policial: Dennis McSchade
 
 

Etiquetas:

mart às 08:53
link do post | comentar |
partilhar

.Do autor do blog
.As Ideias nas Palavras
))) "O teatro e o essencial em nós"

))) "De entre as formas artísticas, o teatro é daquelas que pode entrar mais facilmente em diálogo e discussão com a realidade circunstante. Sempre foi assim. No entanto, atualmente, tanto o teatro quanto a literatura perderam um pouco essa dimensão de refletir sobre a vida, em favor do entretenimento 'puro e duro'. Além disso, preocupamo-nos mais se aquele ator ou escritor tem um estilo diferente do que se o seu trabalho nos faz pensar. E esta peça fá-lo. Numa sociedade onde tudo é mediatizado e em que nos preocupamos demasiado com o acessório, faz todo o sentido refletir sobre a questão da identidade e procurar compreender o que é essencial em nós."
(Virgílio Castelo, actor e encenador português)
.Links com interesse
















Twingly BlogRank

.pesquisar
 
. Acabados de sair

. Herta Müller: Nobel da Li...

. Philip Roth, os hábitos e...

. Caro manuscrito

. Porque é que escreve?

. Prix Goncourt para Atiq R...

. Tobias Wolff e as eleiçõe...

. Roberto Saviano e Gomorra

. Escrever livros, uma indú...

. Os dez escritores mais be...

. Dinis Machado, 21.03.1930...

.arquivos
.Etiquetas

. todas as tags

.NOTAS Á MARGEM
))) "Personagem suficientemente grande"

))) "Uma vez que tomei a decisão de fazer o filme, deixei de ser apenas o filho e passei então a colocar chapéu de realizador. Fiz isto de forma a contar a história da melhor maneira, sem a transformar numa sucessão de cabeças falantes a prestarem depoimentos sobre determinada pessoa que no caso é o Alain Oulman. Percebi que a personagem era suficientemente grande e demasiado desconhecida para a diluir em notas de carácter pessoal".
(Nicholas Oulman, realizador português )


))) "Horizonte fechado num espaço aberto"

))) “A peça consiste num discurso fragmentado de quatro personagens, Márcia, Nuno, Álvaro e Luís, que vivem num universo com passado, mas sem futuro. Foi essa série de monólogos interiores que me interessou. Além disso, é extremamente curioso o facto de uma história que decorre num espaço aberto, o cais, e com um horizonte ilimitado, a margem do rio Tejo, dar origem a um universo tão fechado e aprisionador de vivências e memórias.”
(José Martins, encenador português )


))) "Cidade Criativa"

))) “Uma Cidade Criativa implica uma população residente com um alto nível educacional, boas universidades, uma comunidade diversa, intensa dinâmica cultural, qualidade de vida, vida boémia e as mais avançadas infraestruturas tecnológicas. E, claro está, tudo em escala significativa.”
(Leonel Moura, artista conceptual português )


))) "Potencialidades & Infinitudes"

))) “Há década e meia, meados dos anos 90, aconteceram coisas muito importantes e diversas na civilização ocidental e no mundo, explicou. As dificuldades começaram com a multiplicação das indústrias culturais e depois com os elementos das novas tecnologias (o comércio e a difusão dos produtos culturais, a questão da pirataria, a questão da criatividade, etc). ‘Tudo isto traz alterações brutais no quadro do modo como a cultura pode ser vista, todas as implicações da revolução tecnológica e das redes mediáticas transnacionais’. Os aspectos positivos estão relacionados com as potencialidades das indústrias criativas e culturais e do que elas podem representar para o PIB (produto interno bruto). ’Temos que encarar o termo de múltiplas ilusões: a ilusão e uma infinitude de conhecimento, de uma infinitude de progresso, de uma infinitude de consumo e de uma infinitude da dívida’, disse.”
(Manuel Maria Carrilho, Professor Catedrático, Embaixador de Portugal junto da Unesco, em Paris)


))) "O balanço da década"

))) “Multiplicaram-se os festivais de rock, as feiras medievais, as exposições de encher o olho e os concursos gastronómicos, e desapareceram os projectos de desenvolvimento sustentado nas mais variadas áreas da criação. Esta foi uma década de estilhaços, promessas inconsequentes, celebrações e citações desgarradas. Finou-se a política para o cinema e o audiovisual, finou-se a política do livro e da literatura, finou-se a política teatral e museológica. Todas estas políticas morreram à fome.”
(Inês Pedrosa, escritora e jornalista)


))) "POTENCIAL DE CULTURA"

))) “Uma famosa pianista austríaca deu um concerto numa igreja de um lugarejo de Caminha e contou, em várias entrevistas, que, no meio da assistência multifacetada, estava uma senhora que chegou, amarrou uma cabra à entrada da igreja e ficou a assistir. Era um concerto com 24 prelúdios de Chopin, uma sonata de Litz e outra minha. Portanto, nada fácil. E essa senhora amarrou a cabra lá fora e ficou a ouvir. Isto é maravilhoso! Mostra que há um potencial de espontaneidade interessante.”
(António Vitorino de Almeida, compositor, maestro, pianista e escritor português.)


))) "CULTURA E ESCLARECIMENTO"

))) “É impossível falar em educação e melhoria das condições sociais de vida sem ter em conta a questão cultural. (...) É importante que haja um esforço colectivo para que o contexto cultural a nível nacional seja mais desenvolvido. Uma das nossas preocupações é tornar os públicos que nos visitam ainda mais esclarecidos.”
(João Fernandes, director do Museu de Arte Contemporânea de Serralves, Porto.)


))) "HOMEM, TORNA-TE NO QUE ÉS"

))) “Há aquele preceito paradoxal de Píndaro: "Homem, torna-te no que és". Então, o Homem já é e tem de tornar-se no que é? Realmente, quando se compara o Homem e os outros animais, constata-se que os outros já vêm ao mundo feitos enquanto o Homem nasce prematuro, por fazer e tendo de fazer-se: devido ao que os biólogos chamam a neotenia, já nasce Homem, mas tem de fazer-se plenamente humano. E aí está a razão da educação enquanto o trabalho mais humano e humanizador.”
(Anselmo Borges, teólogo e professor)


))) ENSINAR A RACIOCINAR

))) “O meu homem, que tem a mania de ler o que eu vou escrevendo, está para aqui a dizer que a educação não se mede em Magalhães, e que se os professores continuarem todos a ser obrigatoriamente transformados em burocratas, a preencher papelada e relatórios em vez de utilizarem esse tempo a ensinar os miúdos - não há Magalhães que valha a este país. E que se os miúdos não forem ensinados a raciocinar, a fazer uma pesquisa, a usar um texto como deve ser, a não se limitarem a copiar o que vêem no écran - o Magalhães não serve para nada. Mas isto é evidentemente má vontade dele, que está feito com os comunistas do sindicato… Não lhe dou ouvidos: se em tempos idos um Magalhães deu a volta ao Mundo, este vai dar a volta à cabeça de toda a gente. Que é exactamente o que se pretende.”
(Alice Vieira, escritora e jornalista)


))) Cultura cai sempre bem:
° “A cultura é como o vestido preto das mulheres: uma coisa que cai sempre bem. Nos funerais comove, nos banquetes é marca de distinção. Dá lustro à vaidade de quem a usa, e um je-ne-sais-quoi de densidade que verga, ainda que platonicamente, os mais brutos.”
(Inês Pedrosa, escritora e jornalista)


))) A eterna dissociação:
° “Não avançámos muito em muitas coisas no domínio cultural desde o ‘Manifesto Anti-Dantas’, ou se calhar desde o século XIX. Há uma grande dissociação entre as aparências académicas e o público criativo e os artistas. O desentendimento entre a geração de 1870 e a Academia ou entre os futuristas e modernistas e a Academia nos anos 1920 é muito expresso. Hoje existe ainda essa dissociação. A Academia de Ciências de Lisboa está muito divorciada e afastada da intensa e extraordinária vida criativa que existe em Portugal.”
(José António Pinto Ribeiro, ministro da Cultura)


))) Provincianismo português:
° “Na realidade, tenho divulgado mais a minha obra lá fora do que aqui em Portugal. Como não há grande tradição cultural nem artística no nosso país, logo também não há tradição de pintura. Sempre desejei que a minha obra fosse conhecida no estrangeiro. Aliás, é facilmente perceptível que os meus trabalhos não têm nada a ver com os fenómenos folclóricos portugueses. Têm uma linguagem que tanto é perceptível em Portugal como em outro país qualquer. Não vive o aperto de um provincianismo português. Em Portugal, há uma barreira difícil de transpor que é a do provincianismo, ou então a barreira daqueles que, à partida, pretendem anular os que se vão evidenciando. É um jogo de intrigas e ciúmes que obrigam o artista a sair e expor lá fora. Em Itália ou na França, desde pequenos as pessoas se habituam a ver obras dos grandes mestres, sendo normal para elas esse contacto com a cultura desde muito cedo. Esteticamente, isso irá ter consequências, mais tarde.”
(José de Guimarães, artista plástico português)


))) Criatividade e inovação :
° “E, sobretudo, (o Ministério da Cultura) não teve grande papel na formação da consciência de que a criatividade e a inovação são hoje os principais motores de desenvolvimento de praticamente todas as áreas da actividade, sejam elas artísticas, de investigação ou produtivas. Falta, por exemplo, entre tanta outra coisa, fazer uma verdadeira revolução no ensino artístico que continua assente em modelos ultrapassados, alguns deles com raiz no século XIX.””
(Leonel Moura, artista conceptual português)


)))Cultura na política:
° “Entendo que a cultura deveria ser um dos interesses da política, e a política uma disciplina da cultura. É muito mais fácil dirigirmo-nos a um político culto, e entendê-lo, do que a essa espécie que pulula no poder, e cuja ignorância é devastadora.”
(Baptista-Bastos, escritor e jornalista)


))) Criatividade:
. "E o que é mais paradoxal é que nunca se falou tanto em criatividade, em inovação como agora, quando se estão a impor os meios de um controlo para que a inovação, criatividade, desapareçam.”
(José Gil, filósofo)


))) Cultura:

. "A cultura pode e deve ser um factor de combate à crise, de combate a todas as crises, pondo a criação e a inovação em lugar prioritário, na linha da Agenda de Lisboa da União Europeia.” (Guilherme d’Oliveira Martins, Presidente do Centro Nacional de Cultura)

))) José Gil:
“Por isso o espaço público torna-se a condição imprescindível para que o “dentro” respire. Qualquer coisa deve sempre vir de fora, de um fora ilimitado e intensivo, para que o dentro se possa exprimir. Insisto: trata-se de um espaço de diálogo e de comunicação, é um plano de expressão, de contaminação e de circulação de forças. Existe, não tendo ele próprio expressão, mas dando expressão a todas as vozes que nele se projectam. A maior gratificação que pode receber um artista é saber que a sua obra entrou no espaço anónimo em que transformando-se multiplamente, vai fazer nascer outras vozes, outras escritas, outros pensamentos. Ter a felicidade de saber que a sua obra deixou de ser sua, precisamente pelo seu imenso poder de devir-outra.” (José Gil em “Portugal, Hoje: O Medo de Existir”)
.links
blogs SAPO
.subscrever feeds