
Pergunta a Woody Allen: E o que é que mais admira em Bergman?
Woody Allen: Ele apontava a máquina de filmar a um rosto e deixava correr. Deixava-a correr sem parar e obtinha assim um enorme efeito. Não tinha nada a ver com tudo o que se aprende numa escola de filmar. E sejam quais forem os temas que ele abordava, todos eles parecem tocar-me directamente. Mas o que mais admiro é a sua arte de dramatizar esses temas e apresentá-los de uma forma absolutamente agradável.
Parece ser uma questão que não preocupa muito Woody Allen.
Mas “talvez a arte seja o catolicismo do intelectual esclarecido. Desse modo pode acreditar numa vida depois da morte. [...] A arte é tanto uma ilusão como a solução católica do céu e do inferno! Que é que me interessa a mim que passe daqui a cinquenta anos um filme meu na televisão, quando eu estiver morto?”
(Woody Allen numa entrevista ao Süddeutsche Zeitung, aqui.)

Quando trabalhar é um prazer, não custa nada fazer um filme por ano. Woody Allen rodou mais um: Vicky Cristina Barcelona.
Desta vez fê-lo em Barcelona porque é uma cidade com um grande flair mediterrânico.Uma proposta imoral põe a história em movimento. Rebecca Hall e Scarlett Johansson, nos papéis de duas jovens estudantes americanas, Vicky e Cristina, são interpeladas em Barcelona por um estranho, que nunca tinham encontrado antes, para passar um fim de semana no campo. Ele promete-lhes não só delícias gastronómicas mas também tentadores prazeres físicos. Elas aceitaram.
Começa um carrocel amoroso onde o actor Javier Bardem ocupa o papel do pintor Juan Antonio e Penélope Cruz faz de Maria Elena, sua mulher, entregando-se ambos a uma violenta paixão amorosa. É o filme mais divertido de Woody Allen desde há muitos anos e também o que tem mais pinta europeia.
Finalmente tornou-se o fanático de Nova Iorque num realizador estrangeiro, como é dito na entrevista que deu ao diário austríaco
der Standard. Já na sua juventude era um grande admirador do cinema europeu, e adorava filmes de origem francesa, sueca e italiana. Partes do filme
Vicky Cristina Barcelona foram escritas em inglês que a seguir mandou traduzir para espanhol. A confiança que o realizador americano deposita em Javier e Penélope, permitiu que ambos pudessem improvisar a seu jeito, o que deu um carácter muito pessoal a algumas das melhores cenas da fita.
Sobre a sua inspiração e criatividade diz Woody Allen que lhe surgem ideias maravilhosas mas que lhes falta a ligação com o resto, e é precisamente estabelecer essa ligação que lhe dá muito trabalho. Muitas vezes ocorrem-lhe as melhores ideias quando se está a barbear. Uma fórmula acabada não existe.
E bloqueamentos durante a escrita também os tem. Quando se está sentado num lugar e as ideias não surgem, ou não surgem como se deseja, o melhor é mudar de lugar. Vai passear, e o simples facto de sair de casa, já liberta o pensamento. Mas há também momentos em que tem de recorrer a medidas mais radicais. Tomar um duche, por exemplo, embora já o tivesse feito de manhã. Deixar a água deslizar pelo corpo abaixo, sem estar de olhar fixo no ar, e os bloqueamentos desaparecem.